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27 de novembro de 2014

Acho que é uma crônica

Estou exausto de mais uma tarde de trabalho. O trabalho de certa forma não me deixa exausto, pois para mim é divertido, mas o calor infernal dessa cidade aliado a uma tarde inteira falando não é de se agradar muita gente. Coisa de uma pessoa que parece um velho rabugento, assim como eu. E o mais complicado ainda é você pegar um ônibus lotado nessa cidade que tem um transporte público maravilhoso. Não tem como você ir para casa contente, alegre, só algo atípico acontecendo, que foi o caso desse meu dia.

Entrei no ônibus naquela luta quase que mortal para ir sentado até em casa, como bem sabe quem pega ônibus no centro da cidade. Por sorte me sobrou a última cadeira vazia, do lado esquerdo, a segunda depois da catraca. Parecia que seria mais uma viagem desgraçada, daquelas que me reclamaria por ser pobre e não ter um transporte para minha locomoção. Pensamento de pessoa do terceiro mundo. Como de praxe tento me distrair com alguém para que o tempo passasse mais rápido, então recorro ao celular. Esse aparelho que me faz escravo, que nesse momento não tem tanta utilidade pois ninguém fala comigo, ninguém conversa nada ou fala algo interessante, o que o torna ainda mais inútil do que ele é. Então passo a brincar com um calendário que recebi de uma aluna, que estava empacotado dentro de uma caixa retangular. Passo a mexê-lo entre meus dedos.

Eis que quando passo a brincar, me distraindo, percebo uma ilustre presença em minha frente. Uma guria que é surda e muda, de no máximo 7 anos de idade, me observa a fazer aqueles malabarismos improvisados com o calendário. Ela fica atenta me olhando, com um sorriso mais lindo do mundo. E passa também a querer brincar comigo, mas é duramente reprimida pela outra menina que lhe foi pegar na escola. Achei uma atitude totalmente desnecessária. Porém a guria é insistente e continua a me olhar e pede meu instrumento de brincadeira. Não podia lhe dar o calendário, pois foi um presente, então resolvo lhe dar a caixa que o acompanhava. Nesse mesmo momento ela começa a falar comigo em Libras, me agradecendo. E abre um sorriso ainda mais. Passa a partir daquele momento brincar com a caixa, a soprá-la, a “bater” na menina que está com ela, insiste para que a menina entre na brincadeira, coisa que ela faz com muita relutância, mas faz. Pede também que participe, mas eu com minha timidez filha da puta me recuso, o que também acho uma atitude desnecessária já que queria me distrair. Todavia preferiria observar.

A partir daquela atitude percebo o quanto é bom ser criança, está distante desse mundo poluído de caretissse, sem reclamar de estar pegando um ônibus mais do que lotado. Brincar, ser feliz, sorrindo sinceramente para atitudes que para nós que parecem ser fúteis. Ainda mais aquela guria que por infelicidade da vida nasceu privada e falar e escutar, mas mesmo assim tais habilidades não a impede de ser feliz. A única coisa que lamento é não saber Libras para poder ficar conversando com aquela guria do ônibus, com um sorriso magistral, que me chamava atenção a todo o momento, tentando falar comigo e eu com minha timidez e vergonha infeliz por não está-la entendo, de certa forma a ignorando. 

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