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5 de junho de 2015

Por uma pedagogia do afeto

Ele chega para uma professora de Física dizendo que quer pesquisar um programa educacional do qual fez parte algum tempo atrás, no entanto a mesma o repreende dizendo que isso seria impossível porque ele participou do referido programa. Segundo a professora, ele não terá a imparcialidade necessária na pesquisa científica. Ele ri internamente daquela conclusão, acena a cabeça concordando com o que foi dito, e lembra que é historiador e que esse problema do contato direto com sua fonte já foi resolvido em sua área. 

Este artigo não tratará especificamente da pesquisa científica, mas essa mini-crônica que nos serviu como desculpa de introdução será utilizada como neologismo para a relação do professor com o seu estudante em sala de aula (como também lembrar que a pesquisa esta indissociável da docência – o que poderá ser tema de outro artigo). 

Durante minha vivência acadêmica e docente vi e ouvi muitas coisas. Tenho a noção de que tudo o que vivenciei me serviu de aprendizado, principalmente aquilo proveniente da diferença. Mas antes de qualquer coisa, tenho que justificar o título desse breve texto, onde eu evoco uma “pedagogia do afeto”, o que farei no decorrer do texto. Tenho observado nos últimos tempos um distanciamento das relações professor-aluno. O primeiro chega com o ar de arrogância em sala de aula pensando ser o detentor de todo o conhecimento de sua área e o estudante o recipiente que irá receber toda aquela carga de informação. Na Universidade nos é repassado de forma exaustiva, principalmente nas cadeiras pedagógicas, que isso deveria e deve ser extinto, mas ao mesmo tempo em que a professora dar sua aula ela reproduz o preceito negativo através de suas atitudes em sala. Estaríamos assim começando errado? Acredito que sim. 

Também é notável em algumas escolas, principalmente nas mais tradicionais, um fato curioso que é a figura do professor auxiliar. Eu preferiria chamá-lo de “faz tudo”, pois esse sujeito é que coloca ordem em sala de aula, corrige as provas e atividades passadas no decorrer do processo, cuida de algum incidente, como outras atividades. Ficaria a cargo do professor titular só e somente só ministrar aula, repassar seu conhecimento adquirido numa Universidade, de forma limpa, crua e objetiva. 

Esses são exemplos de relação professor-aluno que, no meu ponto de vista, não vem dando muito certo. O que provoca um distanciamento nas relações de construções de conhecimento como também nas relações pessoais. Primeiro porque o conhecimento em sala de aula deve ser dialético, construído tanto através do saber do professor como também do conhecimento que o estudante possui. E segundo, essa dialética só pode se dá através de relações intersubjetivas, relações pessoais que o professor tem com seu estudante. Acredito que dessa forma o processo de ensino-aprendizagem só tende a ganhar, pois as relações fixas se tornariam fluídas e o conhecimento jorraria como uma das mais belas cascatas que possam existir. 

No entanto, isso recebe uma critica dos pares com a argumentação de que o professor perderia sua autonomia em sala de aula, dando uma maior liberdade aos estudantes e a conseqüente perda de espaço do profissional de educação. Essa crítica seria facilmente refutada porque os professores no nosso sistema educacional ainda confundem autoridade com autoritarismo, problemática já resolvida por Paulo Freire em seu celebre livro Pedagogia da Autonomia. Não estou defendendo aqui uma relação de desordem em sala de aula, pelo contrário, acredito que a ordem provém do afeto que podemos ter com nossos estudantes, sem perder a linha de que a autoridade em sala de aula é o professor, ele que detém o poder da ordem, mas uma ordem dialogada e não autoritária onde prevaleçam só suas vontades e privilégios. 

Em suma, o que falta no nosso sistema educacional é uma maior sensibilidade. Sensibilidade mais por parte dos professores. Conversar com seus estudantes, saber como eles estão, como anda sua vida, seus problemas, seus amores, seus fazeres, e trazer isso para a sala de aula. Fazer da vida conhecimento tornaria mais aprazível nossas aulas, tomar o cotidiano nosso e dos nossos estudantes como materialização do conhecimento. Ser afetado e deixar ser afetado, como os meridianos da Geografia que nos cruzam e nem percebemos, mas sabemos que de certa forma nos fazem um bem.


Vinicius Alves Cardoso, mestrando em História pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).


Artigo publicado na coluna Opinião do jornal O Dia, de Teresina-PI, na data de 05.06.2015.