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10 de novembro de 2015

Nosso perfume de Resedá

Quando eu nasci, diferentemente do anjo do Drummond, meu anjo não pediu para ser gauche na vida. As diferenças começaram por aí. O anjo era completamente distinto daquele que chegou para o menino de Itabira, o meu era torto, louco, solto e doido doido e ainda por cima tinha asas de avião. Chegou com intimidade e tudo mais, me chamando de “bicho” e ordenando que eu desafinasse o coro dos contentes. Prontamente, ainda muito pequeno, aceitei. Nasci sob o signo do escorpião, que depois se encravou na minha própria ferida.

A viagem foi louca. Em Teresina mesmo eu aprontava de montão. Aprontava na escola, mas nem por isso deixei de ser um exímio leitor. Minha paixão incondicional. O que me permitiu fazer aquilo que o anjo havia me pedido. Na companhia de Paulo José Cunha fazíamos a coisa acontecer na capital mafrense. Íamos para o rio Parnaíba banhar nas suas águas claras e descansar nas suas coroas. Andávamos pela Pacatuba e pela rua do Barrocão, mas também não esquecíamos da Paissandu. Eu percebia que aquilo era bom, mas para mim era pouco. Queria outros vôos. Inventei uma desculpa para meus pais e pedi que me mandasse para a Bahia. Consegui enganá-los muito bem. Fui.

Salvador, terra de Iemanjá. As coisas lá fluíam com mais intensidade. Novas amizades eu fiz. Ah, tempos bons. Tempos de Duda Machado, Gilberto Gil, Caetano Veloso. Até as primeiras imagens que Glauber Rocha fez eu estava lá. Uma pena que nos divergimos mais tarde. Ele foi pr’um tal de Cinema Novo e eu para um tal de Cinema Marginal. Mas Bahia me deu grandes amigos. Mais tarde nos encontraríamos em São Paulo, no Rio e iríamos fazer algumas músicas que ainda hoje tocam nas rádios, na internet, e as pessoas nem sabem que são minhas composições. Dizem alguns acadêmicos que elas são um marco da Música Popular Brasileira. A tal da linha evolutiva, mas Raul Seixas estava certo ao dizer que a única linha que importa é aquela de empinar bandeira. Outro baiano, dos bons, mas Bahia, Salvador não me comportava mais. Resolvi ser diplomata. Ou mais uma desculpa para meus pais? Não importa. Agora eu queria saber da ex-capital federal.

O Rio de Janeiro continua lindo. Não perdeu nem um pouco seu ar de ex-capital. Eu estudava pra ser diplomata. Ou achava que estudava. Quando meus pais descobriram que aquilo só era enganação me queriam de volta no Piauí. Prestei vestibular e passei pra Jornalismo. Consegui um emprego temporário. Mantive-me no Rio com essas duas desculpa e com ajuda de amigos e familiares. A coisa estava dando certo. Para além dos baianos conheci mais gente. Veio Edu Lobo, Bethânia, Gal Costa (mais baianos), Chico Buarque, e tenho até foto com Tom Jobim e Vinícius de Morais. A coisa estava dando certo. Me amarrei nessa coisa de ser compositor mesmo sem saber tocar nenhum instrumento musical. As pessoas gostavam das minhas músicas.

Com essa questão de música é que provém o Tropicalismo. Estudamos para isso. Aproveitamos os festivais que aconteciam. Incomodamos. Nesse momento o anjo deu um sorriso de orelha a orelha. Estávamos desafinando o coro dos contentes. Fizeram até marcha contra as guitarras elétricas. Coisa de louco. Não agradávamos nem o Regime e nem a esquerda. Mas o Regime foi que veio com força. Pegaram nossos melhores interpretes. A coisa desandou, no entanto não acabou. Perguntem ao Tom Zé que ainda toca o movimento. Exilaram Gil e Caetano. Resolvi me exilar também. Fui pra França com Hélio Oiticica. Peguei carona no seu parangolé.

A coisa é ruim do lado de dentro e do lado de fora. Na França vi filmes do Godard, passei por todos os lugares que os turistas vão. Mas mesmo com Ana do meu lado a coisa não parecia está completa. Haxixe com Hendrix até usei e vi sua morte alguns anos a frente. Coisa de louca. Ou seria o anjo me dando algum tipo de poder. Não queria saber. Só queria saber do que pode dar certo, não tinha tempo a perder. Vamos voltar para o Brasil. Lá nós temos bananas até para dar e vender. Oh Yes! Lá podia ser o fim do mundo, mas Carmem Miranda era nossa!

Chegando preparei minha trincheira de guerra. Resolvi chamá-la de Geleia Geral. Trouxe para o público as artes e artimanhas em geral: poesia concreta, Godard, Cinema Marginal, briguei pelos direitos autorais. Shows, músicas e pop pop pop. Do bumba meu boi ao iê iê iê. Heloisa Buarque de Holanda disse que era um cinema em forma de jornal, que nós havíamos rendido os chefes de redação. Talvez sim, talvez sim!


Tudo parecia bom. Eu estava me tratando. Eu parecia estar bem. Fui à Teresina, vi meus pais. Encontrei uma galera lá transando jornais e filmes massas, mas voltei pro Rio. Era dia 9 de novembro de 1972. Eu fazia 28 anos. Fomos comemorar, beber uma cerveja patrocinada pelo signo do escorpião. Festejamos e voltamos pra casa. Colocamos Thiago para dormir. Ana também dormiu. Eram 10 de novembro já. Fui para o banheiro, liguei o gás e disse que pra mim chega. Iria procurar a partir daquele momento outra potência de vida que não fosse aquelas que já haviam experimentado. O anjo, muito louco, me disse que eu ainda continuei desafinando o coro dos contentes. Torquato Neto.

Vinicius Alves Cardoso, mestrando em História pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).



Texto publicado na edição de 10 de novembro de 2015 do jornal O Dia, de Teresina - Piauí.